O uso dos dados e a LGPD: os dois lados da mesma moeda

Os dados são ferramentas valiosas. Eles podem ser uma mina de ouro para os negócios que sabem interpretar suas informações para orientar suas estratégias. Com a chegada da LGPD, muita coisa pode mudar.

Quem tem informação tem poder, não é mesmo? E com a internet – e o uso que fazemos dela – isso fica ainda mais evidente. Para as organizações, essa máxima é mais que uma verdade: é uma estratégia de mercado! Assim, quanto mais informações sobre nós elas têm, mais terão condições de oferecer produtos e serviços, com base em nosso comportamento online. Mas que dados seriam esses? Além de informações como nome completo, endereço e números de documentos, por exemplo, os dados mais valiosos para as empresas estão relacionados aos nossos hábitos de consumo e os rastros que deixamos na internet com buscas, interações em redes sociais, etc. Nossos gostos, interesses e ações no mundo digital são dados que valem ouro para quem quer nos vender alguma coisa.

O tema é super importante e merece toda atenção. É por isso que o governo federal acaba de sancionar a vigência da Lei Geral de Proteção de Dados, ou LGPD, como é mais conhecida a Lei nº 13.709/2018, que passou a valer no dia 22 de setembro. Na prática, a LGPD regulamenta o uso dos nossos dados por todas as empresas, incluindo as cooperativas. A ideia é proteger o consumidor.

A importância dos dados para os negócios

O segredo do sucesso da maioria dos negócios atuais é saber combinar os dados com as estratégias de negócio, com foco em melhorar a experiência do cliente. Como já dissemos, os dados valem ouro, pois, além de mostrarem o comportamento das pessoas, permitem que as organizações tomem decisões cada vez mais assertivas com base no conhecimento que têm de seus públicos.

A ampliação do poder das redes, a tecnologia 5G, e a internet das coisas farão com que essa importância cresça cada vez mais. Esse pensamento também é compartilhado pela consultora e futurista Martha Gabriel em seu livro Eu, Você e os Robôs.

“Vivemos na Era Digital, onde as formas de produção e valor passam a depender de dados. Aqueles indivíduos, empresas e países que dominam os dados passam a dominar o mundo. Assim, a era digital inaugura uma economia de dados, em que o valor se encontra em sua extração adequada, manipulação eficiente e transformação em algo relevante para a sociedade – chamamos isso de data capital, ou capital de dados. ” (São Paulo, Ed. Atlas, 2018; 2ª reimpressão; p.151)

Como podemos ver, os dados são explorados com ferramentas e técnicas que envolvem muita ciência e estratégia. Os dados coletados são “minerados”, interpretados e podem orientar as estratégias dos negócios. E hoje com a emergência da inteligência artificial como ferramenta para auxiliar na mineração de dados o processo tem ficado cada vez mais acelerado. O fato é que, quanto mais uma instituição é orientada por dados, melhores são os seus resultados.

E, por isso, atualmente, qualquer instituição que inova e cresce utiliza os dados como base para decisões e ajustes necessários. A ideia é entregar produtos e serviços cada vez mais relevantes para nós, consumidores, a fim de obter e manter a nossa fidelidade. Quanto mais navegamos e interagimos na internet, mais as organizações entendem nossos desejos e receios. E, com isso, conseguem ajustar ou criar ofertas de acordo com nosso perfil.

Tanto que as empresas mais bem-sucedidas do mundo sabem disso e utilizam as estratégias de seus negócios baseadas em dados para criarem novos produtos, melhorarem a experiência e influenciarem seus usuários. As cinco marcas mais valiosas do planeta, em 2020, segundo a Forbes, são as mesmas do ano passado: Apple, Google, Microsoft, Amazon e Facebook. Isso reforça o que estamos afirmando aqui: que o direcionamento dos negócios para tecnologia e dados andam juntas com o sucesso.

E a maior prova disso é o seguinte: quando pesquisamos algo para comprar – mesmo que não compremos na hora, estamos oferecendo gratuitamente às empresas mais conectadas informações que servem para mapear o nosso perfil. E é aí que a “mágica” acontece. Quer um exemplo? Qual de nós não teve o perfil no Facebook bombardeado com ofertas de geladeira, sapatos, comida e até peças de carro depois de uma busca no Google? Você também já deve ter percebido que se tornou um “alvo” de promoções de companhias aéreas, hotéis e agências de turismo sempre chamando sua atenção para aquele destino pesquisado mais cedo nos sites de viagem! Se ainda não percebeu isso, faça o teste, e veja como somos monitorados 24 horas por dia, como se vivêssemos num reality show online. Tudo o que fazemos na internet deixa rastros e as instituições usam essas informações para o bem de seus negócios.

Ordem na casa, digo, na net

Diante desse cenário, onde os dados das pessoas são coletados e têm tanto valor, a privacidade e a segurança digitais também têm ganhado os holofotes nos últimos anos. No Brasil a LGPD, que nos protege do mau uso dos nossos dados, chegou com um certo atraso, mas já está valendo. Desde do dia 22 de setembro, cerca de dois anos após a legislação europeia assegurar a proteção dos usuários da internet, nós, brasileiros, também passamos a contar com esse mesmo direito. Tem até multa prevista para as empresas que não respeitarem o uso regulamentado dos dados de seus clientes.

Mas do que trata mesmo a LGPD? Segundo o Serviço Federal de Processamento de Dados, o Serpro, a LGPD estabelece que não importa se a sede de uma organização ou o centro de dados dela estão localizados no Brasil ou no exterior: se há o processamento de conteúdo de pessoas, brasileiras ou não, que estão no território nacional, a LGPD deve ser cumprida. Determina também que é permitido compartilhar dados com organismos internacionais e com outros países, desde que isso ocorra a partir de protocolos seguros e/ou para cumprir exigências legais.

Outro elemento essencial da LGPD é o consentir. Ou seja, o consentimento do cidadão é a base para que dados pessoais possam ser tratados. Mas há algumas exceções a isso. É possível tratar dados sem consentimento se isso for indispensável para: cumprir uma obrigação legal; executar política pública prevista em lei; realizar estudos via órgão de pesquisa; executar contratos; defender direitos em processo; preservar a vida e a integridade física de uma pessoa; tutelar ações feitas por profissionais das áreas da saúde ou sanitária; prevenir fraudes contra o titular; proteger o crédito; ou atender a um interesse legítimo, que não fira direitos fundamentais do cidadão.

Por falar em direitos, é essencial saber que a lei traz várias garantias ao cidadão, que pode solicitar que dados sejam deletados, revogar um consentimento, transferir dados para outro fornecedor de serviços, entre outras ações. E o tratamento dos dados deve ser feito levando em conta alguns quesitos, como finalidade e necessidade, que devem ser previamente acertados e informados ao cidadão. Por exemplo, se a finalidade de um tratamento, feito exclusivamente de modo automatizado, for construir um perfil (pessoal, profissional, de consumo, de crédito), o indivíduo deve ser informado que pode intervir, pedindo revisão desse procedimento feito por máquinas.

 

Fonte: https://inova.coop.br/blog/o-uso-dos-dados-e-a-lgpd-os-dois-dados-da-mesma-moeda-03eacac74fd3